‘Evangélico ou não, tem que entender de cinema”, diz Osmar Terra sobre Ancine – Agenda Capital

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Ministro da Cidadania Osmar Terra. Foto: Reprodução

‘Gestor da pasta que abriga a Cultura quer um conservador na presidência da Ancine e diz: ‘A Lei Rouanet ainda não está do jeito que queremos’

Por Redação*

Em meio aos desgastes com afastamentos por ordens judiciais na Agência Nacional de Cinema (Ancine), o ministro da Cidadania, Osmar Terra, tenta um nome de equilíbrio para tocar a reguladora. Ele diz que não precisa necessariamente ser um evangélico, como o presidente Jair Bolsonaro afirmou no sábado, mas enfatiza a intenção de escolher alguém conservador.

Enquanto analisa currículos, Terra detalha como será a mudança da agência do Rio para Brasília, diz que “ainda não está totalmente satisfeito com a Lei Rouanet” (após as mudanças realizadas pelo governo em abril) e conta que prepara com as estatais um pacote de espetáculos de teatro fora do eixo Rio-São Paulo.

O presidente disse que quer um perfil “terrivelmente evangélico” e que “recite versículos” na Ancine. Quem será esse nome?

É força de expressão dele. Ele, na verdade, está querendo contrabalançar a excessiva doutrinação política dos filmes, 80% dos filmes brasileiros são feitos de doutrinação política (o ministro não detalha o que é doutrinação política nem deixa claro de onde vem esta porcentagem ). Ele quer amenizar isso.

A questão é doutrinação política ou conservadorismo?

Nós estamos num governo conservador nas áreas de costumes e que com essa proposta ganhou a eleição. Então, é a posição da maioria da população brasileira.

Os filmes brasileiros não podem ser só pornográficos. (Nota da redação: não existe fomento nem incentivo fiscal para filmes pornográficos no Brasil, e mesmo filmes com temática erótica ou sexo explícito são raros: segundo levantamento do GLOBO, em 2018, foram apenas dois entre os 185 lançados no país.)

Alex Braga, que assumiu hoje, pode ser efetivado no cargo? Ele é essa pessoa “terrivelmente evangélica”?

Não, ele está assumindo interinamente em função da decisão judicial. Como não tinha outra pessoa, coloquei ele, é dos diretores disponíveis a assumir. O que vai acontecer agora é a aprovação de dois nomes. Um deles é a Paula (Alves de Souza), do Itamaraty, e depois deve ter outro nome indicado, mas este último ainda não temos. Pode ser até evangélico. Não tenho preconceito com evangélico como não tenho preconceito contra nenhuma outra postura religiosa.

Mas a busca é por um nome evangélico?

Pode ser. Para dirigir a Ancine tem que entender de cinema, sendo evangélico ou não. Tem gente boa evangélica, espírita, católica, mas precisa entender de cinema.

Podemos esperar que essas mudanças deixem a Ancine mais conservadora?

O perfil vai ser mais conservador. Obras de arte é obra de arte. Se for arte e não for só pornografia, vai ser respeitado. É preciso entender isso como uma transição. A Ancine está há 14 anos nas mãos do mesmo grupo político. Começou a ter uma transição no governo anterior, com o Christian (de Castro, presidente afastado na sexta), começou a mudar a coloração política, e agora nós vamos ter duas vagas. Dos quatro (diretores), um já saiu, outro vai sair até outubro (Débora Ivanov). Nós temos de cuidar para que as pessoas que vão para a Ancine sejam pessoas que têm menos ideologia e mais preocupação com o cinema.

Ao deixar a Secretaria Especial de Cultura, Henrique Pires criticou a censura no governo…

O Henrique foi meu chefe de gabinete por dois anos. Foi escolhido por mim. Achei que ele não foi leal, não falou a verdade. Ele nunca reclamou de nada. Ele foi comunicado que ia ser afastado. As coisas não estavam funcionando, ele não tinha o perfil para ser gestor, não coordenava nada. O que eu propus era transferi-lo para uma estrutura menor, podia pegar a Casa de Rui Barbosa. Ele gostou da ideia. No dia seguinte fui surpreendido com a demissão, com o argumento da censura. Mas não teve nada disso.

Mas houve interferência na questão do edital de chamamento da TV pública…

Não. Esse edital era do ano passado, de R$ 70 milhões, com assuntos que não consideramos prioridades. Não é censura, só queremos escolher o tema em que vamos gastar dinheiro público. Não está proibido fazer filme pornô no Brasil. Não é proibido fazer filme nenhum. Não existe censura, mas se vai usar dinheiro público é preciso ser de interesse público. Eu tenho direito de dar opinião. Eu represento quem foi eleito pelo público para fazer gestão.

A mudança da sede da Ancine do Rio para Brasília será quando?

Este ano a diretoria muda para Brasília, e no ano que vem virá a agência toda. Esse negócio do Christian atrasou um pouquinho, mas a determinação já está feita.

O senhor redesenhou a Lei Rouanet. Já sentiu efeitos?

Ainda não está do jeito que a gente quer, mas estamos definindo com as estatais um pacote de espetáculos e teatro fora do eixo Rio-São Paulo. Já conseguimos distribuir melhor, antes tínhamos 85% do. incentivo concentrados no Sudeste e 15% no resto do país. Agora está 50% a 50%. Mas em 2020 esperamos destinar 40% ao eixo Rio-São Paulo.

O senhor tem sido enfático no combate da liberação da maconha. Por que está contra a Anvisa?

A Anvisa virou ponta de lança da liberação da maconha por uma decisão de seu presidente (William Dib). Não existe nenhum lugar do mundo onde a maconha foi legalizada da noite para o dia. Todos começam com essa conversa de maconha medi-cinal. Não existe maconha medicinal. Existe uma ou outra substância na planta da maconha que tem efeito medicinal, mas ainda não está comprovado. Tem de ter estudos do canabidiol, não dizer que fumar maconha é remédio porque isso induz a juventude a usar sem preocupação e a ficar dependente. E a maconha causa danos.

*Com informações do O Globo